MÁGOA

mágoaA mágoa se não for expressa, não receber cuidados e não for curada pode se tornar uma emoção tóxica que explica por que as pessoas boas fazem coisas ruins. A mágoa é uma das fontes mais subestimadas de autossabotagem na nossa vida interior. Quando somos sinceros com nós mesmos, a maioria de nós consegue se lembrar de quando e como fomos magoados. Tudo o que temos que fazer é voltar aos momentos da nossa vida que não gostaríamos de ter vivido e recapitular algumas das experiências dolorosas e indesejadas por que passamos. Fomos magoados por coisas que foram ou não foram ditas, por coisas que nos foram feitas e não nos foram feitas. Sem que soubéssemos, esses momentos perniciosos nos moldaram e definiram quem somos.

Vejo isso de tempos em tempos quando oriento pessoas ao longo de processos profundos de liberação emocional. Não importa se a pessoa é o presidente de uma empresa, um líder espiritual, um atleta profissional, uma mãe que não trabalha fora ou um auxiliar de escritório; quando nos libertamos das camadas de crenças, atitudes, emoções, hábitos e comportamentos mais prejudiciais, descobrimos ter no coração uma ferida que nunca foi totalmente reconhecida, cuidada, integrada e curada. Olhe por trás dessas camadas de vergonha, medo, desesperança, tristeza, culpa, ciúme, raiva, ódio e outras emoções devastadoras que destroem vidas, e você sempre encontrará uma mágoa (ou sucessão de mágoas) responsável por uma ferida que foi encoberta sem jamais receber o devido cuidado.

Quando somos magoados, muitas vezes tentamos magoar os outros, estejamos conscientes disso ou não. Se fomos agredidos, criticados ou rejeitados, intencionalmente ou não buscamos maneiras de infligir essa mesma dor aos outros, como se pudéssemos aliviar um pouco da nossa dor causando dor em outra pessoa. Na grande maioria dos casos, aqueles que abusam sexualmente de crianças – seja molestando-as, usando-as como modelos para fotos pornográficas ou consumindo pornografia infantil – foram crianças que sofreram abusos e agora estão perpetuando esse abuso na tentativa de minorar a própria dor.

A maioria de nós aprendeu a aplicar inúmeros curativos nas mágoas, desviando a atenção para outras coisas que, esperávamos, poderiam nos distrair momentaneamente da nossa dor. Relacionamentos, filhos, amigos, carreira, aquisição de bens, viagens e listas de afazeres podem nos distrair por algum tempo, mas as mágoas que sofremos nem sempre se curam com a passagem do tempo. Muitas vezes elas guardam grandes lições a serem aprendidas e, até que as revisitemos e extraiamos delas a sabedoria que encerram, continuaremos a ser manipulados por uma ferida do passado e levados a agir de maneiras que nem sequer fazem sentido para nós. Embora enterradas nos recessos do subconsciente, as nossas mágoas não processadas estão muito vivas e, como um rastreador, vão buscar paliativos na forma de comportamentos indulgentes que, na crença do nosso subconsciente, nos farão sentir melhor. A mágoa não resolvida está na raiz de todos os comportamentos viciantes e compulsivos. E quando acrescida do nosso medo de confrontar as situações que nos teriam ferido no início, ela nos leva a nos infligir novamente a mesma dor praticando atos prejudiciais a nós mesmos e às outras pessoas. O medo se vincula à mágoa de maneira tão difusa, tão insidiosa que a maioria de nós nem sequer reconhece esse vínculo. O medo nos prepara para esperar mais dor, cria a expectativa de que seremos magoados outra vez, e nos despoja de confiança, vulnerabilidade e intimidade. A mágoa, quando intensificada pelo medo de que seremos magoados novamente no futuro, gera incontáveis expectativas negativas – expectativas que levam à autossabotagem e à decepção. A mágoa não reconhecida cria um caminho circular que leva tanto ao vitimismo quanto a uma futura vitimização.

Debbie Ford

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