E a sombra se foi

Às vezes, você tem uma briga com alguém que ama e nem consegue acreditar que seja verdade. Parece um pesadelo. Você ouve a si mesmo dizendo: “Isso não pode estar acontecendo!” E isso é porque não está — você está perdido num universo paralelo, numa alucinação de separação e conflito.

Anos atrás, disse a mim mesma para não me preocupar com o Diabo, porque ele estava em minha mente. E me lembro do que aconteceu em seguida. Simplesmente fiquei ali, em pé, parada, pensando que, de fato, esse era o pior lugar em que ele poderia estar. Não me sinto tão consolada pela ideia de que não há Diabo por aí, à espreita no planeta, em busca da minha alma, quanto fico boquiaberta com a ideia de que há uma tendência eternamente presente dentro do meu pensamento de me perceber sem amor e, consequentemente, me fazer infeliz.

Então, de onde veio essa “tendência”? Se Deus é amor, e amor somente, e Deus é todo-poderoso, como foi que surgiu uma força oponente? A resposta, metafisicamente, é que, na verdade, não surgiu. Nada existe além do amor de Deus e as palavras de Um curso em milagres: “Aquilo que tudo contém não pode ter oponente”. O princípio do livre-arbítrio é a razão objetiva para explicar o surgimento de um mundo ilusório que, de fato, não existe, mas parece fortemente existir.

Podemos pensar o que quiser. No entanto, nossos pensamentos têm poder, independentemente do que pensamos, pois nosso poder criativo vem de Deus. A lei de causa e efeito garante que experimentaremos o resultado daquilo que escolhemos pensar. Quando pensamos com amor, estamos criando junto com Deus e, desse modo, criando mais amor. No entanto, quando pensamos sem amor, fabricamos medo. Isso significa que temos mentes divididas. Uma parte nossa habita a luz, eternamente una com o amor de Deus. Porém, outra parte de nós — a parte que está mais frequentemente alinhada ao mundo mortal — habita a escuridão. E esse é o self sombrio.

Deus não vê a sombra, pois, não sendo amor, ela, de fato, não existe. No entanto, sendo todo amor, Ele registrou nosso sofrimento quando caímos na escuridão e nos proveu uma cura instantânea. Naquele momento, Ele criou uma alternativa amorosa para nossa insanidade imposta e nosso medo. Essa alternativa é como um embaixador que reside conosco, no mundo da escuridão, sempre disponível para nos conduzir de volta à luz se o pedirmos. Esse embaixador tem muitos nomes, desde Ajustador do Pensamento até Espírito Santo. Para nosso propósito aqui, o chamaremos de Iluminador.

Em Um curso em milagres, é dito que não somos perfeitos, ou não teríamos nascido — mas é nossa missão nos tornarmos perfeitos aqui. É nossa missão transcender a sombra e nos tornarmos nosso verdadeiro self. O Iluminador age como uma ponte entre o self sombrio e nossa luz. Ele foi autorizado por Deus a usar todas as forças do céu e da Terra para nos guiar para além da escuridão e de volta à luz. E o faz, em primeiro lugar, nos lembrando de que a escuridão não é real. Quando estamos perdidos na escuridão, nosso maior poder está no chamado do Iluminador, cuja tarefa é separar a verdade da ilusão. Fazemos isso por meio da prece e pela nossa disposição. “Estou disposto a ver essa situação de maneira diferente” é uma frase que dá ao Iluminador a permissão para entrar em nosso sistema de raciocínio e nos conduzir da insanidade de volta à verdade.

Alguns anos atrás, fui visitar uma amiga que já estava com várias amigas em casa quando cheguei. Uma mulher no grupo tinha um jeito muito afetado de falar, de um modo tão intenso que toda vez que ela falava eu tinha a sensação de que alguém esfregava as unhas num quadro-negro. É claro que minha mente estava disparada em julgamento, já que eu não conseguia entender como alguém podia ser tão afetado no jeito de falar.

Como alguém que busca o caminho, eu sabia que o problema não estava com a mulher, mas dentro de mim mesma — era minha falta de compaixão. Fiz uma prece em silêncio e expressei minha vontade de vê-la de modo diferente. Quase instantaneamente, ou assim me pareceu, outra mulher na sala disse para aquela que eu estava julgando, tão vorazmente:

— Soube que seu pai foi solto da prisão. É verdade?

Enquanto ouvia, observei o desenrolar da história. Embora não me lembre dos detalhes específicos, recordo que aquela mulher ficou presa em cativeiro pelo próprio pai, durante toda a infância, no porão de casa. Ela acabou sendo resgatada e o pai foi para a prisão, por muitos anos. Ao ouvir o sofrimento dessa mulher, percebi por que ela falava daquele jeito. Literalmente, não tivera um modelo saudável enquanto crescia; nem sabia como falar naturalmente, e estava fazendo o melhor para montar o que considerava uma personalidade normal. Os mesmos maneirismos que haviam brotado em mim, cinco minutos antes, como julgamento, agora faziam surgir em mim uma profunda admiração e compaixão. Ela não havia mudado, mas eu sim. Ao rezar, chamei a luz. O Iluminador entrou no mundo da escuridão e me tirou do self sombrio, julgador, ao me dar uma informação que substituiria meus pensamentos de medo por pensamentos de amor.

E onde, nesta vida, havia obtido minha tendência para julgar com tanta aspereza? Partindo de uma perspectiva metafísica, não nasci com isso. Não nascemos no pecado original, nem no erro, mas na mais pura inocência.

Aparentemente, tenho uma memória do momento de meu nascimento muito poderosa. Não tenho como saber se é mesmo verdade, mas sempre tive essa lembrança. Lembro de ver a luminária que fica pendurada em cima da mesa cirúrgica, o que aumenta minha sensação de que é verdade. Segundo essa lembrança, vim ao mundo com uma quantidade infinita de amor para dar, além de qualquer coisa que me permiti sentir, desde então.

Mas isso foi em 1952, quando os médicos ainda achavam que deviam dar um tapa nos recém-nascidos para que respirassem. Então, no momento em que sentia esse amor extraordinário saindo de mim, em direção a todas as coisas vivas, naquele exato momento, senti que fui estapeada. O médico, a quem eu já amava, me bateu. Recordo de ter ficado absolutamente confusa, magoada e traumatizada. Por que ele faria isso? Não podia acreditar que aquilo tinha acontecido. A partir daí, minha mente deu um branco. Caí dentro de alguma coisa, seja lá o que for, e foi tudo.

Aquela lembrança, ou seja o que for, fala à questão da possibilidade de termos nascido com a sombra. A resposta é não; nascemos do amor perfeito. Mas, quem quer que sejamos, ou pelo que quer que passemos, algo ou alguém — frequentemente com a melhor das intenções — nos lança no reino da sombra, e a tarefa do resto de nossa vida será sair da escuridão e regressar à luz.

Desde aquele momento, como recém-nascida — aquela separação traumática do amor que representou dentro de mim a separação de toda a humanidade do amor que trazemos em nosso âmago —, ficaria eternamente tentada a perder o amor de vista. Tendo sido negada ao amor, mesmo que por um instante, agora fico tentada a negar amor aos outros. E o propósito da minha vida, assim como o propósito da vida de todos nós, é lembrar-se do amor interior, recordando sua presença em todas as outras pessoas.

A mulher na casa de minha amiga, por mais admirável que fosse, primeiro me tentou ao julgamento. Mas eu pedi ajuda e recebi. Assim que tive vontade de enxergar a luz nela, a minha luz voltou. E a sombra se foi.

Marianne Williamson

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