Faze as pazes contigo

faze-as-pazes-contigoHá anos, longos anos, que meu Eu é um campo de batalha, porque há em mim dois Eus, que se digladiam sem tréguas.

O Eu ativo de antanho — e o Eu passivo de há pouco.

Afirma aquele que ele é o verdadeiro Eu e que este é intruso impostor.

O Eu passivo não afirma nem nega coisa alguma — continua a ser o que é, receptivo, cada vez mais receptivo, na certeza de que ele é o grande aliado do Universo, que não pode ser jamais derrotado, por fraco que pareça.

O Eu ativo quer receber, tirar, arrebatar — porque é vazio — e como poderia a vacuidade dar algo? Tudo que do vácuo pode sair é o nada, a nadíssima irrealidade, a vacuíssima ausência do ser, o infinito não-ser.

O que o Eu ativo julga dar, antes de fecundado pelo Eu receptivo, é por força um aborto macabro, uma prole sem vida, algum monstro teratológico.

Sabedor disto, o Eu receptivo gravita para o polo oposto — o da passividade absoluta, para o misticismo contemplativo, inerte, inoperante, mortífero.

Quer fugir do convívio social, da família, da política, do comércio, da indústria, do próprio corpo; quer isolar-se, longe do mundo e dos mundanos, no vasto silêncio de alguma caverna desnuda, no verdejante mistério de alguma floresta-virgem, no solene quietismo de algum ermo ignoto, nas puríssimas alturas de algum Himalaia amortalhado em neves eternas…

Deveras! Quem bebeu um gotinha sequer desse vinho mágico do misticismo além-nista, dificilmente voltará dessa dulcíssima embriaguez para a sobriedade trivial dos profanos.

Que significa ainda, para ele, essa farsa cotidiana que os analfabetos da sapiência chamam de “vida”? Essa longa agonia dos prazeres? Essa louca palhaçada das posses, glórias e vaidades? Essa corrida frenética às deslumbrantes vacuidades que formam o cobiçado alvo dos caçadores de miragens e sonhadores de sonhos vazios?…

O ébrio do Além, sepulto no silêncio da sua caverna, vive muito mais intensamente do que todos esses semi-vivos, pseudo-vivos, ainda-não-vivos, do mundo dos barulhos profanos, porque ele é um pleni-novo no vasto cemitério dos mortos ou no triste hospital dos moribundos…

Ele é um nascido, um re-nascido — no meio de nascituros ou abortivos…

Que admira, pois, que esse vidente da realidade nada queira saber da cegueira dos mundanos — não por motivo de orgulho e de desprezo, mas por causa da verdade libertadora e beatífica que possui…

A humanidade de hoje está dividida em duas metades — digamos, em duas partes desiguais: a turbamulta dos mundanos — e o pusillus grex (pequeno rebanho) dos místicos.

E assim continuará enquanto o próprio indivíduo for um campo de batalha em si mesmo, enquanto o Eu não fizer as pazes entre o seu ativo e o seu passivo, entre a dinâmica e a estática, entre sociedade  e solidão…

Ai do homem social!

Ai do homem solitário!

Bem-aventurado o homem social na solidão — o homem solitário na sociedade! Dele é o reino dos céus…

Infeliz daquele que só conhece a horizontalidade estéril dos barulhos periféricos!

Desditoso o homem que só conhece a verticalidade imóvel do silêncio central!

Aqueles são invólucros sem conteúdo — eternamente infecundos…

Estes são sementes vivas, mas que nunca chegam a brotar com verdejante vitalidade, porque se isolaram do solo e do sol, que deviam atualizar o potencial que neles dormita.

Se a semente não cair em terra, ficará estéril — mas, se cair em terra, produzirá muito fruto…

Se o místico se ensimesmar e isolar dentro do Eu e perder o contato com a terra do Nós e do Eles, definhará o seu misticismo por inanição e atrofia interna, porque nada pode viver e crescer sem manter o contato com o grande Todo, com o Cosmos, com Deus.

Esse mesmo mundo horizontal que para o profano é morte, é para o iniciado elemento de vida e saúde, sem o qual a sua verticalidade acabaria doentia e estéril.

A atividade dinâmica é fraca.

A passividade estática é mórbida.

Mas, a passividade dinâmica transborda de saúde e indefectível juventude.

A mística é a raiz da ética — a ética é o fruto da mística.

É necessário que todo homem tenha seu “santuário” para o qual possa retirar-se periodicamente, a fim de intensificar o foco da sua consciência espiritual e não naufragar por entre as tempestades da vida profana.

Quem necessita de um santuário fora de si, não deixe de o frequentar em horas de culto — mas é essencial que cada um tenha o seu sancta sanctorum portátil, dentro da alma, onde possa sempre de novo haurir luz e força, elementos vitais de paz e felicidade…

Faze, pois, as pazes contigo mesmo — pacifica-te, para que possas ser pacificador, porque os “fazedores de paz” é que serão chamados filhos de Deus…

Estabelece consórcio e equilíbrio fecundo entre o Eu ativo e o Eu passivo.

E serás um homem integral, de passividade dinâmica, distribuindo a mãos cheias a abundância que recebeste…

Huberto Rohden

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