Naquele silêncio não existe nenhum observador.

Naquele silêncio não existe nenhum observadorPara meditar, no sentido mais profundo da palavra, temos de ser íntegros, morais.

Não se trata da moralidade de um padrão, de uma prática, ou da ordem social, mas sim da moralidade que brota naturalmente, inevitavelmente, suavemente, quando começamos a compreender-nos a nós próprios, quando estamos atentos aos nossos pensamentos e sentimentos, às nossas atividades, desejos, ambições, etc. – atentos sem qualquer escolha, observando apenas.

Dessa observação nasce a ação correta, que não tem nada a ver com conformismo ou com uma ação de acordo com um ideal.

Então, quando isso existe profundamente em nós, com a sua beleza e austeridade na qual não há nenhuma rigidez – rigidez só existe quando há esforço – quando tivermos observado todos os sistemas, todos os métodos, todas as promessas e olhado para eles objetivamente, sem gostar ou não-gostar, então podemos recusar tudo isso completamente, para que a mente fique liberta do passado; então podemos prosseguir na descoberta do que é meditação.

Assim, perguntamos: pode a totalidade da mente – que inclui o cérebro – ficar quieta? Muitas pessoas têm feito essa pergunta – pessoas verdadeiramente sérias – mas não conseguiram achar-lhe a resposta. Recorreram a artifícios, pois lhes disseram que a mente pode quietar-se mediante a repetição de palavras. Já experimentastes isto: recitar “ave-marias’ ou aquelas palavras sânscritas que certas pessoas trazem da Índia – mantras; repetir certas palavras para quietar a mente? Não importa qual seja a palavra, mas deve ser recitada com ritmo: coca-cola, qualquer palavra – repeti-a muitas vezes, e vereis como a mente se torna quieta. Mas essa mente aquietada está embotada; não é uma mente sensível, vigilante, ativa, viva, apaixonada, “intensa”. A mente embotada, embora diga: “Tive experiências extraordinárias, transcendentais”, está enganando a si própria.

A solução, portanto, não se encontra na repetição de palavras, nem no forçar a mente; muitos artifícios já têm sido impostos à mente a fim de quietá-la. Entretanto, sabemos em nosso íntimo que, se a mente está quieta, não há mais nada que fazer, porque existe então a verdadeira percepção.

Como pode a mente – inclusive o cérebro – ficar completamente quieta? Recomendam alguns respirar adequadamente, tomando profundas inspirações, para oxigenar mais o sangue. A mente vulgar, limitada, pode – à força de respirarmos muito profundamente, dia após dia – tornar-se quieta; mas continua a ser o que é: vulgar e limitada.

Que cumpre então fazer? Quem faz esta pergunta? Vê-se muito claramente que nossa vida está em desordem, tanto interior como exteriormente; e a ordem, entretanto, é necessária, e deve ser tão perfeita como a ordem matemática; mas a ordem só pode ser estabelecida pela observação da desordem, e não pelo ajustar-nos a um plano de ordem, conforme um outro a concebe ou nós mesmos a concebemos. Do ver, do estar cônscio da desordem, resulta a ordem. Vê-se também que a mente deve tornar-se sobremodo quieta, sensível, vigilante, livre de todo e qualquer hábito, físico ou psicológico.

Como conseguir isso? Quem faz esta pergunta? É a mente “tagarela” que a faz, a mente que possui tantos conhecimentos. Aprendeu ela uma coisa nova, ou seja que “só posso ver muito claramente quando estou quieto e, por conseguinte, tenho de ficar quieto”.

Digo, então: “Como posso tornar-me quieto?”. Ora, essa pergunta é essencialmente errônea; no momento em que se pergunta “como”, está-se em busca de um sistema e, portanto, destruindo a própria coisa que se quer investigar, ou seja: como pode a mente tornar-se completamente quieta – não mecanicamente, não forçada, obrigada a tornar-se quieta?

A mente que está quieta, sem ter sido forçada a quietar-se, é sobremodo ativa, sensível, desperta. Mas, quando se pergunta “como”, cria-se a separação entre o observador e a coisa observada. Ao compreendermos que não há método, nem sistema, nem mantra, nem instrutor, nem nada neste mundo que possa ajudar-nos a quietar-nos; quando percebemos a verdade de que só a mente quieta vê, a mente fica tranquila.

Ora bem, a natureza do silêncio tem grande importância. A mente limitada pode quietar-se em seu reduzido espaço; esse reduzido espaço, com sua limitada quietação, é a coisa mais morta que pode existir; vós o sabeis. Mas, a mente que tem um espaço sem limites, mais aquela quietude, aquele silêncio, e nenhum centro – como “eu”, como “observador” – essa mente é muito diferente.

Naquele silêncio não existe nenhum observador. Essa qualidade de silêncio dispõe de um vasto espaço; é um silêncio sem limites e intensamente ativo. A atividade desse silêncio é toda diferente da atividade egocêntrica. Se a mente chegou tão longe, então, talvez, aquilo que o homem vem buscando há tantos séculos – Deus, a Verdade, o Imensurável, “o que não tem nome”, o Eterno – se apresentará, sem ter sido chamado. Bem-aventurado esse homem: para ele existe a Verdade e o êxtase.

Krishnamurti em O Vôo da Águia

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