A dimensão agressiva da vaidade

a-dimensao-agressiva-da-vaidadeComecei a me aprofundar nas questões da vaidade há mais de 35 anos. Porém, parece que só agora sou capaz de compreender a dimensão agressiva embutida neste prazer erótico que todos temos de nos exibirmos, atrairmos olhares de admiração ou de desejo. Gastamos tempo e energia consideráveis com o objetivo de chamar a atenção das pessoas em geral – até mesmo daquelas que nos interessam pouco.

Nos preocupamos muito com nossa aparência física e os mais displicentes sabem que também se destacam por agirem da forma como agem. Gostamos de exibir nossas conquistas materiais, nossos sucessos profissionais, artísticos, esportivos etc.

Muitos de nós têm prazer genuíno naquilo que fazem (trabalho, esporte ou qualquer outra atividade) e sentem crescer sua autoestima (juízo que uma pessoa faz de si mesma em função de estar agindo de acordo com suas convicções). Porém, os prazeres derivados da vaidade (que depende do juízo que “os outros” fazem de nós por estarmos de acordo com as convicções deles) raramente são secundários.

Vivemos nos comparando e quando nos sentimos menos do que “os outros”, segundo algum item, imediatamente nos sentimos humilhados. A humilhação é a dor derivada de nos sentirmos por baixo, perdedores no jogo exibicionista. Fugimos da humilhação porque é uma das maiores dores que podemos sentir.

Estamos expostos ao risco deste sofrimento porque vivemos numa sociedade que estimula de forma desmedida todas as formas de competição e todo o tipo de sucesso que só pode ser atingido por um pequeno grupo de pessoas. Chamo de “felicidades aristocráticas” – beleza, riqueza, inteligência ou dotes esportivos excepcionais – às propriedades raras e que condenam à infelicidade e à humilhação a grande maioria da população. Na verdade, mesmo quem tem inteligência excepcional pode se sentir frustrado por não ser tão bonito e se tornar uma pessoa extremamente ressentida.

Ou seja, numa sociedade assim competitiva e estimuladora da ambição (que nos levaria a atingir resultados extraordinários capazes de chamar a atenção dos outros cidadãos), praticamente todos nós nos sentimos por baixo (humilhados) em algum aspecto “essencial”. Somos todos movidos pela competição e estamos todos frustrados porque achamos que a cota de privilégios que recebemos é insuficiente.

Nos tornamos rancorosos, amargurados e com sede de vingança: usamos nossas prendas, nossas facilidades (inteligência, beleza, destreza verbal, “cara-de-pau” ou o que seja) com o intuito de nos vingarmos daqueles que nos humilham com as “qualidades” que não possuímos.

O fenômeno é quase universal: todo o mundo fica com raiva de todo o mundo. Todos aqueles que podem sentem a humilhação e tratam de se vingar exibindo seus dotes.

Muitas meninas, quando crianças, acham que o legal é ser menino e se sentem frustradas e prejudicadas pelo destino. Quando, na adolescência, se tornam atraentes aos olhos dos rapazes, transformam seu poder sensual em arma, humilhando aqueles que agora estão a seus pés. Meninos delicados, objeto de humilhação durante a infância porque eram mais baixos, porque eram gordinhos ou menos competentes para as práticas esportivas, descobrem que são particularmente inteligentes e dotados para os estudos. Transformam seus dotes em arma, humilhando quem os humilhou com seu saber e com o sucesso que podem atingir pela via do conhecimento.

O triste é constatar que nossa sexualidade (da qual a vaidade é parte essencial) se compromete com elementos agressivos de uma forma quase que irrecuperável.

Homens e mulheres vêm se digladiando de uma forma brutal em prejuízo de todos. A associação é tão radical que muitos casais, que efetivamente se amam, mal conseguem ter um relacionamento sexual básico (o sexo acoplado à agressividade se distancia da ternura que reina entre os que se curtem).

Triste também é constatar que o universo do conhecimento, tão importante para nosso bem-estar quanto a sexualidade, também se contamina com a agressividade, condição na qual os erros poderão se suceder de uma forma dramática. Não espanta que num mundo constituído desta forma, estejamos a um passo da autodestruição total.

Considero essencial aprofundarmos a reflexão acerca da vaidade, da competição, da ênfase que temos dado às qualidades excepcionais que só uns poucos podem ter (em prejuízo de outras que poderiam fazer parte do modo de ser de todos, como é o caso das virtudes de caráter, a disciplina, a competência sentimental etc.), de quanto tudo isso é, de fato, inexorável.

Sim, porque vivemos numa época em que se atribui tudo à seleção natural, às disputas para que os mais fortes reproduzam mais e gerem descendentes mais e mais violentos. Ao tratarmos isso como inevitável, teremos que constatar que tais processos, que estavam a serviço do aprimoramento e perpetuação da nossa espécie, agora serão os que nos levarão ao fim dos tempos.

Flavio Gikovate

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